Isto tem andado a remoer na minha mente de uma forma incessante, desde que aconteceu...
Reparemos: um canal de TV que cresceu e prospera à sombra dessa coisa tão transcendentemente útil que são os reality shows… põe em horário nobre - para ver, clicar
aqui - uma sua jornalista, com um ar absolutamente paternalista e auto-dotada de uma grande superioridade moral, a perguntar a um pobre menino rico se ele tem a noção do quanto é fútil a sua vivência, dedicada a gastar tempo e dinheiro a divertir-se à grande e à francesa!…
Apetece-me dizer "I rest my case"… Mas não. Vou mesmo purgar o que me vai na alma hoje, finalmente.
Para um banqueiro avarento, que dedica a sua vida a amealhar até mais não carcanhol, ver um playboyzito a gastá-lo como se não houvesse amanhã, parecer-lhe-á tal atitude da maior futilidade possível e imaginária. Mas do ponto de vista do playboy, não haverá também menor futilidade em só arrebanhar aquilo com se compram os melões e acabar por não os comprar. E com carradas de razão, a meu ver!…
Afinal, haverá melhor emprego para o vil metal do que tentar comprar com este um pedacinho de felicidade, mesmo que efémera?...
Para um grande sábio, a vida de um camponês eremita consagrada apenas a plantar umas couves para as suas sopinhas pode parecer fútil. Tratar tão-só da sua auto-subsistência, sem tempo para a busca do conhecimento… mas o camponês também vê como fútil o sábio que perde todo o seu tempo a ler calhamaços, sem depois partilhar com ninguém o conhecimento adquirido.
Para um funcionário público de uma qualquer repartição de finanças eu sou fútil. Porque estou desempregado e nada produzo para o bem comum desta nossa sociedade. Mas eu também vejo a sua actividade profissional recheada de uma enorme futilidade. Requerimentos, pareceres, relatórios de contas… Que sumo é que se pode extrair disto tudo, depois de bem espremidinho?…
Fúteis são a esmagadora maioria das actividades humanas. Fútil têm sido algumas das profissões que já exerci. Como a publicidade e as vendas de produtos e serviços, todos eles fúteis.
Fúteis têm sido os meus esforços para voltar a ter uma nova actividade profissional remunerada, com que eu possa garantir a minha existência fútil. E quando deixarem de ser fúteis por finalmente darem resultados, estes serão muito provavelmente eu ter um novo emprego em funções com certeza fúteis.
Até altos cargos são fúteis. Fúteis têm sido muitos exemplos superiores de exercícios de poder. Desse poder detido por reis presidentes, ministros, chanceleres e outros quejandos. Que existem e deviam agir para nos servir a todos nós. Mas que são bastas vezes tão inábeis a fazê-lo.
Fúteis são todos os templos e orações que os homens fazem a deuses que não existem.
Fúteis são todas as guerras. Porque nunca há nestas absolutos vencedores e vencidos. Mas sempre há a fútil perda de vidas humanas. Por causas fúteis. Toda a causa de natureza política, social ou económica que exija o sacrifício de uma só vida humana tem de ser fútil.
Mas não são só os ódios que alimentam as guerras que são fúteis. Também o são aqueles amores que acabam e que não deram frutos.
De um particular ponto de vista, toda a vida pode sempre ser vista como fútil, afinal. Ainda que não o queiramos ver assim.
E, finalmente, fútil foi este presente exercício de escrita. Porque não despertará quaisquer consciências. Porque quase ninguém o lerá. E quem o vier a fazer provavelmente virá a esquecer o que leu.