sábado, 24 de janeiro de 2026

• Oxalá não seja nada mesmo

Deixa-me ouvir o que não ouço...
Não é a brisa ou o arvoredo;
É outra coisa intercalada...
É qualquer coisa que não posso
Ouvir senão em segredo,
E que talvez não seja nada.
- Fernando Pessoa              

Por força das circunstâncias estou em Lisboa num hostel na rua Rodrigues Sampaio. A viver um filme de terror. Disse viver, não a ver. Agora deve estar no intervalo, porque por uns sete dias acho que vou ter alguma paz de espírito e tempo para mim mesmo.

Só neste breve encetamento do anno da graça de dois mil e vinte e seis já vivi num anexo na aldeia de Ponte do Rol, Torres Vedras; numa galeria de arte ao pé do estádio São Luís em Faro, num chalé em Bela Mandil, Olhão e num apartamento em São João do Estoril.

Na próxima terça-feira dia 27 talvez esteja numa quintinha emtre Vila Franca de Xira e Arruda dos Vinhos.

Agora aqui no hostel baratinho estava a partilhar o quarto com um economista que já foi um assessor do Cavaco, trabalhou no SIS e viaja com frequência para os Estados Unidos e Irão. E entretanto juntou-se a nós mais uma senhora distinta, prof de finanças. Que entre outras escolas lecionou no ISCAL.Curiosamente são ambos de Aveiro. Não me sinto tão sozinho no meu relativo infortúnio.

Mas não deixo de me perguntar porque razões estas personagens vêm parar aqui a esta baiúca, que será decente mas bué low cost.

Estive a viver um ano inteiro em Ponte do Rol. Mas de repente a minha senhoria brasileira quis deixar de arrendar todas as suas casas. E encontrar alojamento hoje em dia é um inferno.

Quiçá daqui a uns dias para além dum tecto mais uma vez eu tenha também o carinho de que já vou carecendo.

Oxalá isto tudo não venha a ser nada mesmo.