segunda-feira, 25 de fevereiro de 2013

• A minha espiritualidade

Desde que me conheço, desde que me entretenho a pensar sobre o sentido da vida, de onde viemos e para onde vamos, que sempre fui um céptico militante.

Nunca acreditei piamente. Nunca aceitei completamente que a Terra, o universo e nós, humanidade, tivessem mesmo de ter sido criados por um ou mais seres superiores.

Uma vez que nasci num país mais que maioritariamente católico, à época, tive de ter a minha mente sujeita à colectiva moldagem nessa fé religiosa. Por mais que os meus antecessores, tanto pais como avós maternos, os mais chegados na minha infância e adolescência, fossem pouco fervorosos.

A geografia, a meu ver, é um factor que vem condicionar enormemente a fé com que cada um de nós vai ter de viver, se o quiser, até ao fim da sua vida. Se eu tivesse nascido, por exemplo, em Israel  teria de sofrer a formatação respectiva á fé judaica, imposta pela sociedade. No Irão teria de ser xiita. Na Suécia, protestante. No Vietnam, Budista. Na Grécia, ortodoxo. E assim por diante. 

Decidi muito cedo não me deixar condicionar. Sobretudo depois de ter ouvido falar de Lutero. Mas ao contrário deste não busco onde estará a verdade absoluta. Porque se há algo em que acredito é que ninguém a poderá deter. Nem nenhum humano nem qualquer corrente religiosa seguida por grandes massas.

Nem sequer Buddha, o desperto, que passou em anos recentes a encantar-me com a sua lenda. Nem também Jesus, de quem ninguém sabe toda a verdade sobre a sua passagem por este mundo. E os que eventualmente souberem mais do que os outros parece que têm de calar o que sabem. 

Por tudo o que antes disse e por ter um espírito mais para o científico do que para o romântico, por achar também muito válida uma máxima que foi dita por Carl Sagan, que proclamou "Eu não quero acreditar, eu quero saber"… Por tudo isto e o mais que ainda não conto aqui e agora… Eu sou ateu.

Retrato de Baruch Spinoza
Mas não deixo de ser do bem. À minha maneira. Admirando o pensamento de Baruch Spinoza, um filósofo judeu de origem portuguesa. Que por força da sua fé ser perseguida nestas partes onde eu vim a nascer teve de partir para os Países Baixos. Onde pode ser um livre pensador - mais livre do que nesta Lisboa madrasta - e grangeou justa fama. E grande. Pena é que cá não tenha chegado a sua luz.

Eis o que Spinoza disse no longínquo ano de 1765:

"Se Deus tivesse falado, ele teria dito:

Pára de ficar rezando e de bater no peito! O que eu quero é que saias pelo mundo e desfrutes de tua vida. Eu quero que gozes, cantes, te divirtas e que desfrutes de tudo o que eu fiz para ti.

Pára de ir a certos templos lúgubres, obscuros e frios que tu mesmo construíste e que acreditas serem a minha casa.

A minha casa está nas montanhas, nos bosques, nos rios, nos lagos, nas praias e no coração das pessoas. ali é onde eu, de fato, vivo e ali expresso meu amor por ti.

Pára de me culpar da tua vida miserável! Eu nunca te disse que há algo mau em ti ou que eras um pecador, ou que tua sexualidade fosse algo mau. O sexo é um presente que eu te dei e com o qual podes expressar teu amor, teu êxtase, tua alegria. Assim, não me culpes por tudo o que te fizeram crer.

Pára de ficar lendo supostas escrituras sagradas que nada têm 
a ver comigo. Se não podes me ler num amanhecer, numa paisagem, no olhar de amigos, nos olhos de teu filhinho. Sim, me encontrarás 
em um bom livro, uma poesia, uma obra de arte e, quem sabe, 
em um mendigo.

Confia em mim e deixa de me pedir. Tu me dirás como fazer meu trabalho? Pára de ter tanto medo de mim. Eu não te julgo, nem te critico, nem me irrito, nem te incomodo, nem te castigo. 
Eu sou puro amor. 

Pára de me pedir perdão. Não há nada a perdoar. Se eu te fiz, eu te enchi de paixões, de limitações, de prazeres, de sentimentos, de necessidades, de incoerências, de livre-arbítrio. Como posso te culpar se respondes a algo que eu pus em ti? Como posso te castigar por ser como és, se eu sou quem te fez?

Crês que eu poderia criar um lugar para queimar todos meus filhos, pelo resto da eternidade, porque não se comportaram bem? Que tipo de Deus poderia fazer isso?

Esquece qualquer mandamento, qualquer tipo de lei; essas são artimanhas afim de manipular-te, para te controlar, que só geram culpa em ti. Respeita teu próximo e não faças o que não queres para ti. A única coisa que te peço é que prestes atenção a tua vida, que teu estado de alerta seja teu guia. Esta vida não é uma prova, nem um degrau, nem um passo no caminho, nem um ensaio, nem um prelúdio para o paraíso esta vida é o único que há, aqui e agora. Isto é único de que precisas para crer em mim e receber da vida.

Eu te fiz livre, isto é, relativamente responsável. Não há prémios nem castigos. Não há pecados nem virtudes. Ninguém preenche um placard. Ninguém leva um registro. Tu és condicionalmente livre para fazer de tua vida uma dádiva ou uma ameaça, um céu ou um inferno.

Eu não te posso dizer se há algo depois desta vida, mas posso te dar um conselho. Vive como se não o houvesse... Como se esta fosse tua única oportunidade de existir, de aproveitar, de amar. Assim, se não há nada, terás aproveitado da oportunidade que te dei, sendo correcto e vivendo feliz.

E se houver, tem certeza de que eu não te vou perguntar se foste comportado ou não. Só vou te perguntar se tu gostaste. Se te divertiste e do que mais gostaste. O que aprendeste. 
O bem que fizeste.

Pára de apelar para mim! Isto é, supor, adivinhar, imaginar. Eu não quero que assim, acredites em mim. Quero que me sintas em ti. Sim, quero que me sintas em ti quando beijas tua amada, quando agasalhas tua filhinha, quando acaricias teu cachorro, quando tomas banho no mar.

Pára de me louvar! Que tipo de deus ególatra tu acreditas que eu seja? Aborreço-me quando me pedem desculpa. Canso-me quando me agradecem. Tu te sentes grato? Basta isto.

Pára de complicar as coisas e de repetir como papagaio o que te ensinaram sobre mim. A única certeza é que tu estás aqui, que estás vivo e que este mundo está cheio de maravilhas.

Demonstra-o, cuidando de ti, de tua saúde, De tuas relações, do mundo. Te sentes olhado, surpreendido, admirado? Expressa tua alegria! Este é o jeito, o único, de me louvar. entendeste?

Para que precisas de mais milagres? Para quê tantas explicações? Não me procures fora! Não me acharás. Procura-me dentro de ti, nos outros, nas coisas e, sobretudo, nas relações que vives. Aí é que estou, sempre estarei, abraçado contigo."

Estas são as palavras mais sábias sobre a fé dos homens - todas as suas diferentes fés - que eu jamais escutei. E só as consigo imaginar hoje em dia na boca de um único sumo-sacerdote: o Dalai Lama.

Eis aquilo em que eu, um humilde contador de histórias e um amante da beleza que está em toda a parte, acredito.

4 comentários:

Poppy disse...

Pontos de vista interessantes :) Gosto desta frase:
"Crês que eu poderia criar um lugar para queimar todos meus filhos, pelo resto da eternidade, porque não se comportaram bem? Que tipo de Deus poderia fazer isso?"

E foi um pensamento semelhante que recentemente colocou à prova aquilo em que acredito ou deixo de acreditar.

Enquanto rapariga das ciências também sei que a geração espontânea não existe, e se cá estamos foi porque algo aconteceu... Particula de Deus? Talvez :)

Giuseppe Pietrini disse...

Poppy, o que Spinoza quis essencialmente dizer-nos, creio eu, foi que os homens mistificaram Deus de uma forma que ele não aceita como a mais verdadeira. Se Deus existe e nos ama, não quer concerteza que nós o amemos em retorno sobretudo por temor a Ele. Ou mesmo nada por temor a Ele. Assim terá de ser o melhor Deus que haver pode.

Eu não acredito no Deus ou nos deuses dos homens. Acredito tão-só na maior máxima comum às 10 maiores fés religiosas deste mundo: não faças a outro o que não gostarias que te fizessem a ti.

E o que quer que tenha acontecido cabe a ti, rapariga das ciências, descobrir. Faz-nos esse favor...

Beijim! ;-)
Giuseppe
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Poppy disse...

Fico grata por tal "missão" mas não me parece que as minhas aptências sirvam para tanto, fico-me por aspirações "mais mortais", pelo aconselhamento e investigação no que diz respeito ao consumo responsável de medicamentos, entre muitas outras coisas :)

Quanto às demais palavras, concordo plenamente, acho que essa frase simples e aparentemente tão complexa de praticar é o caminho ideal para o bem do humanidade, já reparaste (tomo a liberdade de tratar por tu) que se não fizessemos aos outros aquilo que não gostaríamos que nos fizessem a nós nem guerras haveria? Simples assim não é?

Também não acredito que Deus, a existir fosse capaz de criar uma pia de fogo para enfiar lá quem se portasse mal, e a continuar a analisar a biblia (livro que eu leio) à letra em termos de pecados, sobraria alguém que não fosse pecador? Até Pedro (um dos apóstolos negou Jesus Cristo por 3 vezes...). Não concordo que as religiões cativem/manipulem as pessoas pelo temor. E seitas e religiões radicais, ou melhor, seguidores radicais são simplesmente assustadores.

E pronto se calhar já chega :) Estes assuntos estimulam o meu eu filosófico e acabo por me esticar nas palavras, peço desculpa por isso :)

Beijo

(Eu acredito em Deus, porque como já referi, do nada nada surge. Agora se Deus é a aquela figura de barbas brancas, tão genialmente, do ponto de vista artístico, concebida por Miguel Angêlo no tecto da capela Sistina... Isso aí já duvido, e muito!)

Giuseppe Pietrini disse...

Poppy, se me tratas por tu estás a honrar-me com a tua confiança. Portanto agradeço que continues a me tutoyer, s'il te plait.

Eu prefiro não me prender a nenhuma fé, embora as respeite todas, com algumas excepções. Sobretudo não quero que a fé que eu deva ter, como toda a gente, seja determinada por um condicionalismo geográfico. Falo de ter nascido num país de maioria católica.

Gostei de ter sentido que terei estimulado um pouco um eu filosófico bem bonito. Fico todo inchado! Parabéns pelo teu blog. Acho que vais ganhar mais um seguidor assíduo.

Maizum jinho. ;-)
Giuseppe